Resenha: V.I.S.H.N.U.

By: BrunoScarpim

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HQ? Sci Fi? Produção brasileira? Opa!

Abram alas para “V.I.S.H.N.U.”, uma graphic novel brasileira de ficção científica de muito respeito!

Mas por que tanto estardalhaço? É simples, e podemos encontrar a resposta em uma única palavra: profundidade. Esta não é apenas uma história em quadrinhos despretensiosa no quesito enredo, ou seja, não basta ler, é preciso buscar os significados nos termos e nas expressões anunciadas. Caso contrário, serão 223 páginas de pequenas loucuras, imagens borradas e mais do mesmo para o gênero da ficção especulativa.

Indo ao que interessa: a história. Não se diz exatamente quando se dão os fatos mostrados, mas sabe-se que tudo se passa na Terra, em alocações espalhadas pelo globo. Citando algumas – não todas –, temos São Paulo, Índia e fronteiras sul-americanas (frisando que o que ocorre em cada uma das locações tem impacto direto no resto do mundo). Enfim, a civilização global conseguiu se reerguer após um apocalíptico e caótico momento. Este que fora causado em função de uma Inteligência Artificial (o Dude) ter se tornado tão independente e indispensável que, após uma “crise”, trouxe abaixo todos os sistemas em rede aos quais a humanidade estava alicerçada. Assim, houve uma considerável luta para que tudo voltasse a ser como era, porém com menos dependência de sistemas, e, ao que se pareceu, através de um considerável mergulho em uma espécie de “idade da trevas” – claro que não abandonando as tecnologias modernas.vishnu

Interessante comentar que o “Dude”, após dar uma de adolescente revoltado com a humanidade (aqui parece brincadeira, mas lá a coisa foi feia…), acabou se “suicidando”, o que me arremeteu automaticamente aos robôs depressivos de Douglas Adams, e após algumas discussões entre os personagens de V.I.S.H.N.U., acabei novamente me dobrando à sabedoria contida na série do Guia do Mochileiro das Galáxias, que é o fato de uma inteligência artificial conseguir evoluir o suficiente para quebrar protocolos próprios de segurança e não ver sentido em sua própria existência depois de calcular todas as suas potencialidades (chegando à conclusão de que “suicidar-se” é seu único próximo passo).

Enfim, o medo de I.A.s serem desenvolvidas de forma independente, e de um novo colapso vir a se repetir, fez com que os maiores investidores internacionais se reunissem e organizassem o mundo em áreas, atuando diretamente na política, na economia, na religião e principalmente na tecnologia dali para frente.  A “Gaia” se tornou a instituição responsável por supervisionar avanços tecnológicos de ponta, e à frente dela está o Reverendo Leon Wilczenski (sim, “reverendo”, a tecnologia alcançou patamares de importância teológica e sim, o sobrenome dele está escrito corretamente), que se depara certo dia com V.I.S.H.N.U., uma I.A. vinda de lugar nenhum, mas que se diz capaz de fornecer um futuro para a humanidade, que, dentre seus cálculos, não terá futuro algum sem sua ajuda.

vishnu_04A partir daí sua existência é descoberta através de informações que vazam para a mídia e para o mundo. Revoltas ocorrem por medo de um novo Dude vir à tona e intrigas políticas se desenrolam nos bastidores para que cabeças rolem e não haja culpados vivos. Ou seja, contar tudo isso aqui seria um pecado, além de uma falta de educação desagradável. O que não posso deixar de dizer é que V.I.S.H.N.U. já surge da melhor maneira “badass” possível, pois deixa o teste de confiabilidade do reverendo no chinelo como se ele e toda a sua amadurecida superioridade racional humana não fossem nada além de uma equivocada brincadeira de criança.

Muito bem, muito bem, mas a palavra de ordem não era “profundidade”? Pois então, eis que lhes digo: não é qualquer um que consegue criar um projeto como este nos dias de hoje. Temos aqui o tema do futuro da humanidade tratado de maneira racional e orgânica, com a presença de detalhes observáveis em nossa atualidade, tal como embriões de “Dudes” já existentes por aí. Além disso, vemos em doses escandalosas, o corporativismo governamental em libidinosa relação com a instituição particular em ação, juntamente do ficcional mundo diplomático regente nos interesses internacionais, para não citar, em doses menores, a presença dos padrões religiosos e sua transmutação diante de novas necessidades e interesses da humanidade. Ascensão não é mais aos céus: upload de consciência para a rede é a nova ascensão buscada, como que vida eterna nos meios virtuais.

Profundidade? A reconstrução do mito hindu a partir da ficção científica, observando profecias e acontecimentos, questionamentos morais e éticos. Enquanto estiver lendo, busque pesquisar sobre a divindade Vishnu e uma ou outra referência profética hindu. As coisas se encaixarão e tudo fará muito mais sentido! E por falar em sentido, a própria forma de desenvolvimento artístico nos quadrinhos simboliza determina visão ou percepção contaminada, corrompida, havendo nebulosas mudanças de consciência, pois a proposta aqui não é trazer linhas e traços bem definidos, pois se trata do futuro e tudo nele é incerto, sendo algumas partes mais incertas que outras. Por isso, não se desespere ao abrir tais páginas, pois aos poucos você se acostuma com o desenho, o ritmo e as mensagens escondidas (também não preciso dizer que para bom entendimento mais de uma leitura é necessária, né?).

Uma resenha grande para uma grande graphic novel brasileira. Com certeza, um achado realizado pelas mãos de Eric Acher (argumento), Ronaldo Bressane (roteiro) e Fábio Cobiaco (arte). E se consegui manter sua atenção até aqui, é porque merece o que V.I.S.H.N.U. tem a lhe oferecer. Boa leitura!

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